Reajuste por sinistralidade: por que o plano da sua PME subiu tanto e como negociar a renovação
Era uma quinta-feira comum quando o e-mail da operadora chegou. O dono de uma empresa de doze funcionários no Gonzaga abriu o anexo esperando o reajuste de sempre — e leu 28%. De um mês para o outro, o plano de saúde que já era a segunda maior despesa fixa da empresa passaria a custar quase um terço a mais, sem que uma única linha do contrato tivesse mudado. Nenhum funcionário novo, nenhuma cobertura ampliada. Só um número maior.
A primeira reação é quase sempre a mesma: ligar para a operadora achando que houve erro. Não houve. E a segunda é aceitar calado, porque parece que não há o que fazer — o boleto vem, a equipe depende do plano, e trocar dá trabalho. É exatamente nessa hora, entre o susto e a resignação, que a maioria dos donos de PME em Santos toma a pior decisão possível: assinar a renovação sem entender de onde saiu aquele percentual. Porque quem não entende como o número é calculado não tem como contestá-lo — e o reajuste do plano empresarial, ao contrário do que quase todo mundo pensa, é negociável.
Por que o seu reajuste não segue o teto da ANS
Comece por desfazer a confusão mais comum. Todo ano a imprensa noticia o "reajuste da ANS" — aquele percentual único, divulgado pela agência reguladora, que limita o aumento dos planos. O detalhe que passa batido é que esse teto vale apenas para planos individuais e familiares. Se o plano da sua empresa foi contratado por CNPJ, com dez, vinte ou trinta vidas, ele não está sob esse teto. Nunca esteve.
O plano empresarial — e o coletivo por adesão — é reajustado por outra lógica, chamada sinistralidade. Enquanto o plano individual sobe por uma regra geral do mercado, o plano da sua PME sobe pelo comportamento da sua própria carteira. Em outras palavras: o reajuste que você recebeu é, em boa parte, um espelho de quanto a sua equipe usou o plano no último ano. Se entender isso, você já saiu na frente da maioria dos empresários que só descobrem a diferença quando o boleto pesa.
Como a operadora calcula a sinistralidade da sua empresa
A conta que a operadora faz é mais simples do que o percentual assustador sugere. Ela pega tudo o que pagou pela sua equipe no período — consultas, exames, terapias, internações, cirurgias — e divide pelo total que recebeu de mensalidades no mesmo período. O resultado é o índice de sinistralidade.
- Se a sua empresa pagou R$ 120 mil em mensalidades no ano e a operadora gastou R$ 108 mil com a sua equipe, a sinistralidade é de 90%.
- A maioria das operadoras trabalha com um limite técnico em torno de 70%. Abaixo disso, a carteira é lucrativa e o reajuste tende a ser menor. Acima disso, a operadora entende que está no prejuízo com aquele contrato — e recompõe a margem no reajuste da renovação.
É por isso que duas empresas idênticas em tamanho e cobertura, no mesmo bairro de Santos, podem receber reajustes completamente diferentes: uma equipe jovem que quase não usou o plano chega à renovação com sinistralidade de 55% e um aumento modesto; uma equipe que teve duas internações e uso ambulatorial intenso chega com 95% e leva os tais 28%. O reajuste, no fim, não é arbitrário — ele conta a história de como o seu grupo usou o plano.
Há ainda um segundo componente embutido no percentual: a variação de custos médicos (a chamada VCMH), que é a inflação específica da saúde — novos tratamentos, insumos, tecnologia. Ela costuma rodar bem acima da inflação geral e entra em todo reajuste, some-se à sinistralidade. Por isso mesmo empresas com baixa sinistralidade dificilmente têm reajuste zero.
O que você pode fazer antes de aceitar a renovação
Aqui está a parte que quase ninguém aproveita: o primeiro reajuste apresentado é uma proposta de abertura, não uma sentença. Existe margem, e ela se conquista com informação. Alguns caminhos concretos:
1. Revise as vidas ativas. É comum a carteira carregar dependentes que ninguém usa mais, ex-funcionários que deveriam ter sido excluídos, ou vidas duplicadas. Cada uma dessas infla o custo sem gerar valor. Uma limpeza cadastral antes da renovação já muda a base de cálculo.